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Camboja  e Angkor

Edna Cardozo Dias


Um dos grandes desejos da minha vida de viajante era conhecer Angkor, uma das maravilhas do mundo. Às margens do Rio Siem Reap a província do mesmo nome é a capital de entrada das ruínas milenares do império Khmer. As ruínas estão num parque arqueológico declarado pela UNESCO como patrimônio da humanidade.


A antiga capital do Camboja foi Angkor, palavra derivada do sânscrito. O Império Khmer estava centrado em Angkor, que esteve no auge de seu esplendor entre os séculos IX e XV. O seu imenso prestígio advém de seus monumentos entre planícies e montanhas, florestas e plantações de arroz, lagos e rios.


A lenda conta que o príncipe Preah Ket Mealea, filho do deus Indra com uma mulher humana visitou o palácio de seu pai no céu. Como ficou muito encantado com o mundo celestial Indra lhe ofereceu o reino do Camboja para que ele construísse uma reprodução do que viu no céu.


Pinuskar, arquiteto dos deuses na mitologia hindu, construiu Angkor Wat em uma noite e a transformou em sólida pedra. O complexo de Angkor Wat é a alma do povo Khmer. Angkor representa a fina arte, grande civilização, coração espiritual, identidade nacional e poder político. Consiste em duzentos monumentos em uma área de 400 km².


O templo é dedicado ao deus Visnu. É erguido em estupas em forma piramidal que simbolizam o monte Meru, morada dos deuses. As estupas foram construídas para que os deuses pudessem nelas habitar na Terra e ajudar os homens. Depois se transformou num santuário budista. Inspirados nas escrituras sagradas a arquitetura Khmer reproduz imagens míticas como Monte Meru e Monte Kailassa em suas estupas.


Angkor Wat é o maior e mais famoso dos monumentos. Fiquei para ver o por do sol no templo. Sentados em uma pedra, eu e o guia, um rapaz franzino e meio triste me contou a história do Camboja enquanto esperávamos o sol se por. Assim me relatou sua infância que sob o regime comunista implantou uma agricultura escrava. Separou as famílias, pais, filhos e avós para divisão do trabalho. As crianças após cinco anos eram utilizadas para catar esterco a ser utilizado para fertilizar as plantações de arroz, sem luvas. Ele nasceu na década de 1980 e só nos anos 90 a guerra civil teve fim. Muitos mutilados de minas ficam pelas estradas do parque tocando música e esperando donativos dos turistas.


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Dizem que ao por do sol as estupas do templo mudam de coloração. E quem quiser ver o espetáculo do céu pode fazê-lo em um balão por 15 U$. Nos dias seguintes visitamos vários outros templos. O Baksei representa o Monte Kailassa, também morada dos deuses no plano sutil.


O templo que mais me impressionou foi o Angkor Tom, com 12 km de muro, precedido de uma ponte onde do lado esquerdo estão as estátuas gigantes dos deuses do bem e à direita dos deuses do mal, guardiãs da cidade.

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O Templo Bayon é o mais bonito em Angkor Tom e fica no centro da cidadela. Nos arredores estão o terraço dos elefantes, o palácio do rei leproso (onde se realizavam a dança das apsaras). Em seu território vivem macacos que esperavam a dádiva de alimentos dos visitantes.


Segundo um viajante chinês do século XIII, Zhou Daguan todo entardecer a serpente aparecia em forma de mulher na sacada de elefantes em um templo ao lado para assegurar a prosperidade do povo.


O Templo Pta Prohm impressiona por estar invadido pela floresta. Gigantescas raízes de árvores se entrelaçam em suas construções.


São imprescindíveis as visitas aos templos Ta Prohm, Phrah Khan (espada sagrada), Neak Pean (usado para rituais de purificação). A água e o rei eram motivo para a construção de vários templos.


Outro templo que me encantou foi o Neak Pean, que fica em uma ilha artificial e pretende ser uma representação do Lago Anavatapta, que serão as últimas águas a secar no fim desta era cósmica.


Também se acredita que possuam poderes curativos. Segundo a crença budista os quatro maiores rios do mundo nascem no Lago Anvatapta que deles escoam por quatro gargantas em forma de cabeça de animal.


Angkor foi redescoberta no século XIX e exploradores como Henry Mouhot (ficaram fascinados por essas enormes construções meio enterradas pela vegetação. A França nesta época controlava o Vietnam, Laos e Camboja.


No período pré angkoriano (802-1431) já estava definido por idéias indianas com um sistema de governo que reproduzia uma organização do mundo dos deuses com o dos homens. O rei estava no topo do sistema como suprema divindade.


No período pos angkoriano Angkor foi abandonada como capital (mais ou menos 1431), quando Camboja se envolveu com conflitos com o Sião e o rei Dhamma Shokaraja foi destituído de seu poder. Angkor deixou de ser a capital.


Phnon Penh, atual capital do Camboja


Quando os franceses chegaram em 1853 no Camboja este país tornou-se colônia da França, que privatizou a terra do rei.


Depois da 2ª Guerra Mundial o sentimento nacionalista predominou e foi criado o Partido Popular Revolucionário do Kampuchea, sob os auspícios do Vietnã.


A França só concedeu independência ao Camboja em 1953. O governante eleito Norodom (1955-1966) sofreu oposição de esquerda do Khmer Vermelho. Em 1967/68 houve uma revolução comunista. O regime Pol Pot, do Kmer Vermelho foi sangrento e só terminou em 1978. Só em 1993, com intervenção da ONU teve início a democratização e todos com quem conversei querem a presença do rei Norodom Sihamoni e a manutenção da monarquia.


Na capital Phnon Penh meu guia era um médico, cujo salário do governo era 100 U$, por isto complementava sua rende como guia.


O primeiro local que visitei foi o Museu Nacional, localizado no Royal Palace que guarda coleções da arte Khmer. Suas esculturas datam do período ankgkoriano, pré-angkoriano e pos angkoriano. É um prédio construído com desenho tradicional cambojano (1917-1920).


O Palácio Real é uma cidadela construída pelo rei Norodom em 1866, do lado do Rio Mekong. Impressionam o trono dourado e o Pagode de Prata com o Buda Esmeralda talhado em hallesse. Seus murais contam a história do épico Ramayana (como na Tailândia).


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A montanha Wat Phnom é uma atração turística porque conta a lenda da criação da cidade de Phnon Penh. Segundo o folclore, durante a metade do século XIV uma rica viúva chamada Penh vivia nas terras altas ao lado do rio. Durante as estações de chuva teve uma grande enchente no Laos. Muitas árvores caíram e flutuaram pelo Rio Me Kong. A senhora Penh chamou a população para pegar um tronco e descobriu que quatro estátuas de Buda esculpidas em bronze e pedra estavam gravadas nele. A montanha recebeu o nome de Penh. O rei ao conhecer a história deu à cidade o nome de Phnom (montanha) e Penh. Foi construído um templo, hoje aberto aos visitantes que lá fazem seus pedidos a Buda e à senhora Penh. Oferecem flores, frutas e incenso. O acesso à casa é precedido de uma escada guardada por leões de pedra. Do lado de fora vendem-se pássaros para serem libertados para que o ato traga boa sorte.


Os templos budistas no Camboja são guardados pela cabeça de dragão, pela serpente ou cabeça de leão.


Um fato interessante é que no Camboja antigo as mulheres a cada dia da semana se vestiam com uma roupa de cor diferente. Cada dia da semana tem uma energia diferente. Esta mesma convicção renasceu com a crença na Grande Fraternidade Branca. Para cada dia da semana existe um mestre, cada mestre tem um raio com sua cor diferente. Ao todo são sete raios com as core do arco-íris. A ciência, a globalização, bem como o cristianismo extirparam muitos conhecimentos e crenças antigas. Na esteira da supertição muita sabedoria foi esquecida.


Apesar da pobreza o povo é amável, o país é lindo e merece ser visitado. É bom lembrar que para se entrar no país é preciso um visto, que pode ser obtido na fronteira ou no Brasil. Os turistas são muito bem recebidos, os hotéis são maravilhosos e oferecem ao visitante todo conforto, luxo e mordomias inimagináveis.



 


 



 


 



 


 

 

 

 

 
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